domingo, 20 de maio de 2018

MÚSICA AO DOMINGO.


                                                           



Se um dia a vida parasse e a gente voltasse
Ao tempo que havia
E se o Mondego passasse e a todos levasse
A um velho dia
Talvez a Lapa cantasse e em pedra gravasse
A nossa alegria
Talvez a Lapa sorrisse e à pedra se ouvisse
« Olá poesia »
Se agora o rio pudesse juntar quem padece
de tal nostalgia
E tanta gente viesse, sem sonhos nem prece
E sem rebeldia
Talvez a Lapa chorasse em pedra gravasse
A nossa agonia
Talvez a Lapa sofresse e à pedra dissesse
" Adeus poesia "




Uma nova versão do velho Fado de Coimbra:  "Romagem à Lapa" 

 Espero que vos agrade.





sábado, 19 de maio de 2018

A IMPERFEIÇÃO FAZ O MUNDO ENGRAÇADO.


O ocaso visto do meu terraço.
( ainda não é o 'tal'...mas um dia chego lá! :) ) 


No Entardecer dos Dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição,
Havia uma cousa a menos
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos” - Poema XLI


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quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Quem Interessar...



…Faço saber o seguinte:
A minha fábrica de produção de células desatou a produzir desalmadamente, há já algum tempo. Os técnicos especializados na matéria não conseguiram ainda detectar onde está a avaria. (Provavelmente já será defeito de origem)

Após efectuar diversos exames e todos os resultados se terem mostrado inconclusivos, foi necessário ir mais fundo. Digamos que, tão fundo, como o é penetrar no cerne da vida humana: a medula óssea.
O exame que realizei ontem foi extremamente doloroso. Doloroso demais.
Sinto-me cansada, mas não desanimada.

Amanhã realizarei o último exame desta longa série de testes, que tenho vindo a realizar. Algo que muitos de vós já deveis ter tido o gostinho de fazer: colonoscopia.
De seguida ficarei a aguardar o veredicto, que é como quem diz, o diagnóstico desta estranha condição que é possuir uma fabriqueta manhosa, que produz células que não são benignas nem malignas!
(Palavras do médico hematologista.)
Serão o quê? A ver vamos!!

Voltarei ao vosso convívio, tão cedo quanto puder. Já sinto saudades disto.
Até lá deixo um grande abraço a TODOS quantos passarem por este meu e vosso cantinho. Obrigada.


Quem de mim sentir saudades, olhe,veja, e imagine-me por aqui.


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domingo, 13 de maio de 2018

O Gato E Eu.

Lembram-se de vos falar no gato do meu vizinho? O tal que andou, sorrateiro, pelo muro que divide os dois quintais... a apurar o ouvido para detectar de onde chegavam os piu-pius...aquele, a quem atirei o pau...Pois bem, o caçador de passarinhos, não caçou nada e eles, os meus melrozitos já voaram e vazio ficou o ninho...
...Sinto saudades dos seus chilreios.


Ficou-me o gato para me servir de modelo fotográfico...Basta-me vir ao fundo do terraço, olhar para baixo e lá está ele a cheirar alguma lagartixa que se escondeu em qualquer buraco do velho muro.
Faço psst-psst, ele levanta a cabeça e o seu olhar fica preso ao meu. E assim se mantém o gatito a olhar-me impávido, com a tranquilidade de quem não cometeu pecado algum...e eu, zás...clico. Ficámos amigos, acho eu. Pelo menos não somos inimigos.


Quando lhe dou autorização para dispersar e ir à vida, :) sem correrias lá vai para o seu lugar preferido: a chapa ondulada que cobre o depósito das garrafas de gás, aquecida pelos raios de sol desta desequilibrada Primavera...A ramagem do limoeiro do quintal do dono, continua a ser o seu esconderijo mesmo agora que já não precisa de se esconder do pau que eu lhe atirava...Ele ronrona e eu penso:- que estranhas formas de vida são as nossas. A do gato, a dos passarinhos que nunca mais vi, a do meu solitário vizinho...e a minha... 


Tu e eu temos de permeio 

a rebeldia que desassossega, 
a matéria compulsiva dos sentidos.

Que ninguém nos dome, 

que ninguém tente 
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza, 
pois nós temos fôlegos largos 
de vento e de névoa 
para de novo nos erguermos 
e, sobre o desconsolo dos escombros, 
formarmos o salto 
que leva à glória ou à morte, 
conforme a harmonia dos astros 
e a regra elementar do destino. 



[ Ode  ao Gato - de José Jorge Letria ]



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CORTO MALTESE.






Recordação de um Sol Distante

Fazia calor. Um sol límpido e brilhante castigava as palmeiras, o pomar de laranjeiras e as pedras do muro que o rodeava. O laranjal ocupava todo o lado sul do recinto da mesquita de Córdova e as árvores continuavam no exterior a densa floresta de colunas da mesquita. Enquanto alto muro contribuía para restabelecer o isolamento, o céu, de um azul perfeito, fazia de cúpula.
Depois de atravessar a Catedral, Corto Maltese entrou no jardim e percorreu lentamente toda a sucessão de arcos árabes brancos e vermelhos até que parou. Ficou a olhar as carcaças ressequidas de crocodilos penduradas como troféus. Era um rapaz de dez anos.
 (...)






O Fim da Balada

Caim e Pandora estavam na ponte de comando do cruzador do tio: tinham encontrado as roupas e as atitudes de dois jovens de boas famílias. Pandora desfolhava um livro com ar distraído, afastando graciosamente os cabelos do rosto. Caim observava a costa com um comprido óculo de cobre. Pandora lia uma linha, depois lançava um olhar rápido ao primo.
- Que está ele a fazer?- perguntou-lhe num tom desinteressado.
- Está parado junto a um barco que deveria chamar-se «Argos».
- «Argos»? – repetiu Pandora surpreendida.
- Sim, «Argos»- Contaram-me que o Corto Maltese chegou nela há uns anos.
(…)

- Adeus, Caim!
Havia uma grande tristeza naquelas duas palavras.
- Mas de que adeus estás a falar? Temos uma grande casa em Cape Cod. É fácil de encontrar. – Entregou a ponta da corda e a piroga afastou-se suavemente, enquanto o vento enfunava as celas.

- Corto Maltese! – gritou Caim, com toda a emoção que o envolvia – convido-o, bem como a todos os que quiser levar consigo. Até à vista, meus amigos, até à vista! Não se esqueçam. Vocês são…vocês são…as pessoas mais maravilhosas do mundo!




NOTA: Dedico este post à rapaziada da geração Corto Maltese.

Este livro, do escritor e autor de banda desenhada Hugo Pratt, 
foi o primeiro  de uma longa lista, como poderão ver e ler AQUI e AQUI
Também  - se conseguirem - pelas imagens da contracapa do livro.

Com data de Junho/97, pertenceu/pertence ao rapaz que creio ser da mesma geração, e já viveu nesta casa, hoje, a viver no país das tulipas.


Dois comentários que li, algures aí num outro blog, de dois bloggers  que constam na minha lista, fizeram-me lembrar deste audacioso marinheiro e ir à sua procura. Tanto procurei que o encontrei,  adormecido, numa estante onde repousam os livros, antigos, já lidos e semi-esquecidos...

 TODOS os RAPAZES, que leram as aventuras de Corto Maltese; este post é para vós!!      :)



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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Porque Hoje É Sexta-Feira. #9



O Rei é o nosso compadri!...


Um alentejano vai a Lisboa pela primeira vez, entra num carro eléctrico e senta-se no último lugar vago da última fila.
Quando o eléctrico inicia a marcha, o revisor aproxima-se dos passageiros dos bancos da frente e começa a cobrar os bilhetes.

- Marquês de Pombal – diz um.
- Duque de Ávila – diz outro.
- Duque de Loulé – disse um terceiro.

Entretanto chega a vez do nosso alentejano.
Diz ele, enchendo o peito de ar todo orgulhoso.

- Maneli, Rei dos Frangos, um amigo da Vidiguêra pró serviri…







   

E, hoje, é  isto...espero que vos agrade!    :)                     




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quarta-feira, 9 de maio de 2018

HOMENS....







….Quem pode dizer que eles fazem falta?…

:)


                   
Toda a gente sabe que os homens são brutos
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer

São muito pouco astutos, muito pouco astutos

Toda a gente sabe que os homens são brutos


Toda a gente sabe que os homens são feios

Deixam conversas por acabar

E roupa por apanhar

E vêm com rodeios, vêm com rodeios

Toda a gente sabe que os homens são feios



Mas os maridos das outras não

Porque os maridos das outras são

O arquétipo da perfeição

O pináculo da criação

Dóceis criaturas

De outra espécie qualquer

Que servem para fazer felizes

As amigas da mulher


E tudo o que os homens não

Tudo o que os homens não

Tudo o que os homens não

Os maridos das outras são

Os maridos das outras são



 Amigas, não vou pedir-vos para que se pronunciem, mas se o quiserem fazer…




segunda-feira, 7 de maio de 2018

GENTILEZA E HUMILDADE.

Coisas, Pequenas Coisas


Fazer das coisas fracas um poema. 

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade. 

[Fernando Namora, in Mar de Sargaços.]









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